Mar de Weddell tem Icebergs Gigantes, Orcas e Emoção de Extremos
Publicado em 22/06/2025 · Categoria: Negócios
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Os batimentos cardíacos aceleram à medida que você coloca o traje especial para remar (com conforto e bem aquecido) um caiaque de dois lugares no Mar de Weddell em temperaturas negativas. Estamos do “lado de lá” da Península Antártica, lugar tão remoto que o aplicativo Marine Traffic comprova nosso grau de isolamento – não há nenhum outro navio no Weddell nesse momento, em plena alta temporada de janeiro último. O SH Diana, da Swan Hellenic, está só.
Devidamente equipado, o grupo de oito felizardos sai do navio em um bote (conhecido como zodiac) que reboca quatro caiaques até um determinado ponto no mar plácido, de um azul-petróleo intenso. Quase não há vento. Sol e céu aberto. A entrada no caiaque é tranquila. Ao empunhar o remo e começar a brincadeira, “cai a ficha” do quão sensacionais são os arredores: montanhas do continente antártico cobertas de neve como pano de fundo e, no primeiro plano, icebergs azulados fantásticos, um deles com um enorme buraco por onde se vê o outro lado. A emoção é imediata – o choro se mistura a um sorriso que insiste em não sair do rosto, como se estivesse congelado. Cada remada parece um beliscar que enfatiza a consciência de que aquela sucessão de cenas oníricas faz parte da realidade. Remadas servem também para dar ritmo ao silêncio, que é absoluto.
Esse momento mágico são apenas duas horas de um cruzeiro de expedição cultural de 12 dias de navegação a partir de Ushuaia (extremo sul da Argentina) rumo à Antártica – com o diferencial em destaque no nome do roteiro que zarpou dia 8 de janeiro: Weddell Sea Discovery. Esse mar é famoso por ser endereço de icebergs gigantes, que parecem carros alegóricos em uma avenida sem fim, e por ter aprisionado no gelo o navio Endurance, de Ernest Henry Shackleton, em 1915 – o naufrágio só foi localizado em 2022, a mais de 3 mil metros de profundidade (leia boxe na pág. 131 sobre a aventura de Shackleton).
É no Weddell também que podem acontecer raros avistamentos de pinguim-imperador – tivemos a sorte de ver 13 deles. Outra grande expectativa da expedição foi realizada com louvor: quatro desembarques em solo antártico. Três insulares e um continental, em View Point (Baía Duse), na Península Trinity, algo incomum de acontecer – para se ter ideia, o experiente líder da expedição, o sul-africano Brandon Kleyn, de 33 anos, com mais de 50 visitas à Antártica desde 2018, só esteve em View Point quatro vezes. Brandon estava esfuziante nesse desembarque, enaltecendo o instante extraordinário. Por essas e outras, comprovamos na prática o slogan da Swan Hellenic: see what others don’t.
Lake Drake or Shake Drake?
A saída de Ushuaia é um passeio muito sossegado. O Canal de Beagle é bem protegido e você mal sente que está em uma embarcação. A coisa começa a ficar mais séria quando a Ilha Navarino fica no retrovisor e entramos nas águas agitadas da sempre imprevisível Passagem de Drake. São dois dias de travessia até alcançar as ilhas que cercam a Península Antártica. Caso o Drake esteja tranquilinho, sem muitas ondas, ele leva o apelido de Lake Drake. Agora, se ele estiver furioso, a alcunha muda para Shake Drake. Na dúvida, a dica é tomar um remédio contra enjoo antes mesmo de embarcar em Ushuaia (essa é minha segunda vez na Antártica: na primeira, sem remédio, enjoei e passei muito mal; na segunda, com remédio e o Drake mal-humorado, me senti em casa, quase um Roald Amundsen).
O que contribui para manter a calma mesmo diante das ondas de mais de cinco metros é a segurança passada pelo SH Diana. Trata-se de um navio novinho em folha, que completa seu segundo ano de operação em maio. Com 125 metros de comprimento e 23 de largura, tem capacidade para 192 passageiros (nesse cruzeiro, eram 171) e 127 tripulantes. São 96 acomodações entre cabines e suítes – fiquei na 619, uma das maiores, com 41 metros quadrados. O navio leva a assinatura do estaleiro finlandês Helsinki Shipyard (155 anos de tradição) e tem o interior com decoração nórdica. Projetado com casco reforçado para gelo (Polar Class 6 – em uma escala que vai até sete), estabilizadores extragrandes e amplas áreas de convés externo, o navio é repleto de pontos de observação. No Deck 8, a torre de comando reúne o que há de mais moderno em termos de navegação e radares.
O navio SH Diana com a Antártica ao fundo e um zodiac no primeiro plano
Flexibilidade, flexibilidade, flexibilidade: o resumo de um cruzeiro pela Antártica
A grande diferença entre um cruzeiro de expedição antártico e os que acontecem, por exemplo, no Mediterrâneo é que no primeiro você nunca sabe ao certo para onde vai e os planos mudam em questão de minutos. Bem diferente do segundo, com desembarques planejados em portos, cheios de gente, passeios no centrinho da cidade e almoço agendado em um bom restaurante. Talvez esteja aí o barato de ir para esse destino de natureza extrema: você vive uma expectativa 24 horas por dia sobre o que pode acontecer, sobre as mudanças do clima, sobre baleias que aparecem na janela sem hora marcada, sobre icebergs de todos os tamanhos e formatos. Há um certo frisson ininterrupto em um cruzeiro antártico.
Briefings diários – no caso dessa viagem, às 18h20 – trazem atualizações do roteiro e a previsão do tempo para o dia seguinte. Brandon Kleyn conduz a apresentação. No primeiro dia, ele abriu sua fala dizendo que existem três coisas fundamentais para um turista em cruzeiro de expedição: flexibilidade, flexibilidade, flexibilidade. Explicou que trabalham com um plano A, mas muitas vezes passam para o B, C, D, E… De cara, tivemos uma grande mudança: inicialmente, iríamos primeiro ao Mar de Weddell para depois visitarmos a região do Arquipélago Palmer, na costa oeste da Península Antártica. As péssimas condições para os lados do Weddell inverteram a ordem do roteiro.
A rotina a bordo logo demonstra outra qualidade das jornadas da Swan Hellenic: o nível da equipe de guias. Especializados em diversos assuntos relacionados à situação, eles dão palestras sobre cetáceos, aves, histórias de grandes expedições do passado, como andam as pesquisas dos principais países que atuam hoje na Antártica, e por aí vai. Destaco, por exemplo, o nível de detalhes sobre o programa chinês antártico explanado pelo russo Artem Rabogoshvili (PhD em história, especializado em história asiática) na aula sobre como a Antártida é dividida entre os países e onde ficam as principais bases. Excelente também o britânico Richard Simpson, um showman narrando suas aventuras nada comuns em partes inexploradas da Antártica e como veio parar, sem querer, a bordo de um navio da Swan Hellenic na pandemia.
Sob a batuta do chef indiano de Bombaim, Amit Rao, o Swan Restaurant, no Deck 7, serve cardápios que passeiam por diferentes cozinhas do mundo (destaque não só para os pratos principais, mas para os pães e as sobremesas). As amplas janelas do restaurante funcionam como um ótimo ponto de observação – não esqueça de levar os binóculos (emprestados em todas as cabines) para as refeições. Cruzeiro antártico segue a mesma lógica de safári africano: os avistamentos de fauna podem acontecer a qualquer instante. Caso bata uma fominha à tarde, sempre há o que beliscar no Club Lounge, no Deck 7 (destaque para as pizzas). E, para você não ficar com muito peso na consciência por comer muito no cruzeiro, no Deck 8, há uma academia com aparelhos modernos (e mais janelas panorâmicas), spa e uma jacuzzi externa (a piscina fica na popa do Deck 7).
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