Como o Festival de Parintins Virou Vitrine do Talento e Economia da Amazônia

Publicado em 01/07/2025 · Categoria: Negócios

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Toda última semana de junho, uma cidadezinha no interior do Amazonas paralisa para um duelo azul e vermelho. O que poderia ser algo local, pequeno, tomou proporções potentes. A 400 quilômetros de Manaus, ilhada pelas águas do Rio Amazonas, Parintins vira o centro de um fenômeno cultural que não só gira a cultura e a economia do estado em centenas de milhões de reais, mas atrai olhares do mundo inteiro. Chegou a hora do maior espetáculo a céu aberto do mundo: o Festival de Parintins.

Quem move esse motor são os “bois”. Representação amazonense do bumba-meu-boi do Maranhão, ali as influências nordestinas se fundiram com as manifestações indígenas locais. O resultado é uma festa cultural como em nenhum lugar do mundo, com dois times de rivalidade centenária. De um lado, o Boi Garantido, com sua torcida vermelha; do outro, o Caprichoso, de cor azul.

Todos os anos, desde 1965, ambos se enfrentam na arena do “Bumbódromo” pelo título do Festival Folclórico de Parintins. Nada menos do que três dias de apresentações com danças típicas, toadas e alegorias gigantes representando o folclore e o povo da floresta. A cidade leva muito a sério a rivalidade azul e vermelho: das cores das casas à calçada e até patrocinadores – o único lugar do mundo que você verá uma lata de Coca-Cola azulada, por exemplo –, tudo é dividido. Como morador, escolher para qual boi-bumbá vai sua torcida é como escolher parte da identidade. São eles que reinam e regem a ilha.

Divulgação/Secom Parintins

Dividido exatamente entre azul e vermelho, Bumbódromo deve ser ampliado de 26 para 40 mil lugares no próximo ano

Nos três dias do festival (em 2025 entre os dias 27 e 29 de junho), o município de 102 mil habitantes mais do que dobra de tamanho. Este ano a estimativa é que 120 mil pessoas visitaram a “Ilha da Magia” nessa época – público recorde entre as 58 edições da festa. Para dar conta da demanda, a Azul adicionou 196 voos extras chegando e partindo de Parintins, quase 13 mil assentos a mais do que sua operação normal na ilha.

O acréscimo ainda assim não foi suficiente, diz Ana Rego, diretora de marketing da Amazonastur, braço do governo responsável por fomentar o turismo no estado. Muita gente não conseguiu chegar ao destino, que hoje investe para ter estrutura para receber um número cada vez maior de turistas.

O investimento, claro, é estratégico. Mais do que movimentar vidas inteiras dedicadas ao trabalho no boi-bumbá e uma multidão de fãs apaixonados, o Festival de Parintins gira a economia local de forma sem precedentes. Em 2024, em menos de uma semana, ele gerou um movimento econômico de R$ 146,7 milhões – alta de 23,24% em relação ao ano anterior. Em 2025, mais um crescimento: R$ 180 milhões movimentados no estado todo durante o período.

Divulgação/Secom Parintins

O Boi Garantido foi o grande campeão do Festival em 2025

Efeito Parintins mundo afora

O duelo entre Caprichoso e Garantido de fato virou um fenômeno na última década. Os relatos dos locais comprovam que a festividade furou a bolha desde o começo dos anos 2000 e, desde então, vem chamando atenção massiva de outros estados (principalmente Pará, São Paulo e Roraima) e países para a Amazônia.

Os ingressos para o festival (de até R$ 4.800 por pessoa) esgotam dias após a abertura das vendas, enquanto a rede hoteleira já vê lotação quase um ano antes da próxima edição. Hospedagens podem passar os R$ 30 mil por cinco dias em um hotel ou até R$ 100 mil para atracar sua embarcação em algum clube à beira do rio. Para um voo de 55 minutos, passagens aéreas de última hora chegaram a mais de R$ 10 mil ida e volta. “É tipo Bolsa de Valores: os valores aumentam e baixam o dia todo com a procura, e tem gente desesperada para vir”, brinca Gisele “Gigi” Cunha, empresária e uma das principais fomentadoras da moda na Amazônia, que acompanha de perto a movimentação cultural e econômica em torno da festa.

Divulgação/Secom Parintins

No Amazonas, escolher para qual boi-bumbá torcer é coisa séria e move paixões

Não estranhe se ouvir bastante inglês ou espanhol pelas ruas. Turistas vêm de todo canto e muitos pagam o preço que for para ter a chance de tomar um dos 26 mil assentos do Bumbódromo e ver de perto a maior apresentação de teatro ao ar livre do mundo. Entre as nacionalidades estrangeiras que mais batem ponto em Parintins, gente dos Estados Unidos, Colômbia e Inglaterra são recorrentes – fruto de um esforço governamental de promover o destino internacionalmente, como uma exposição gratuita que aconteceu no ano passado em Nova York. Este ano, alguns operadores de turismo americanos marcaram presença na festa para entender como vendê-la (ainda mais) aos seus clientes.

Não à toa, o Ministério do Turismo injeta R$ 10 milhões – R$ 5 milhões para cada boi – para fomentar o festival. O apoio do governo federal veio em forma de reconhecimento do “potencial do festival de transformar vidas por meio do turismo e da economia criativa”, afirmou o ministro Celso Sabino. Na iniciativa privada, outra potência: grandes marcas como Coca-Cola, Bradesco, Natura, Ambev e Mercado Livre compram cotas publicitárias que podem passar dos R$ 15 milhões cada. Para administrar comercialmente o evento, Caprichoso e Garantido até deixaram a rivalidade de lado e se uniram em uma agência de marketing, a Maná, com foco em captação de patrocínios ao redor do país.






“Hoje o festival se consolidou como um dos mais importantes do país. Foi feito um trabalho de anos de divulgação de Parintins, e agora entramos em uma segunda fase: a de profissionalizar”, afirmou o governador do Amazonas, Wilson Lima, à Forbes Brasil. “Nosso esforço atual é de oferecer o melhor receptivo, a melhor infraestrutura e um melhor Bumbódromo”, disse em referência ao plano de ampliar o local do evento no próximo ano, quase duplicando sua capacidade para 40 mil pessoas.

Arte brasileira e pioneira

A grande ópera a céu aberto que é Parintins virou vitrine para uma arte autenticamente brasileira, celebrando costumes, tradições e a vasta diversidade da Amazônia. O fenômeno movimenta um forte capital cultural do estado e da região Norte, e acabou exportando tecnologia e artistas locais para outros festejos importantes.

Divulgação/Secom Parintins

As indumentárias são parte importante das apresentações, com todo design das roupas e acessórios feitos localmente

Os talentos que fazem o espetáculo acontecer não são poucos. O esforço é homérico e mobiliza uma multidão de artesãos, construtores, dançarinos, músicos, costureiros, “formigas humanas” (como são chamados os responsáveis por mover as alegorias enormes) e criativos no geral. Só em cada uma das três noites do show, cerca de 3.500 participantes de cada lado do boi assumem o palco e os bastidores do Bumbódromo – sem contar quem participa dos planejamentos por quase 10 meses antes do festival acontecer de fato.

A intenção não é só valorizar a cultura regional, mas mostrar sua potência para o mundo. “Tudo que aparece nas apresentações é feito localmente, de artistas amazônicos”, exalta Gigi. A Amazônia está em todos os detalhes: nas roupas, nos cocares, nos acessórios, nos instrumentos, na cenografia. Até concurso local elege quem fará as próximas indumentárias ou toadas de cada boi, e fora de época, a arena do festival vira lugar de oficinas – crianças e jovens aprendem sobre música e artesanato, em um esforço de formar as novas gerações de criativos da região. “O parintinense já nasce artista”, reforça Ana.

Nesta concentração de talentos, o palco de Parintins acabou virando sinônimo de vanguarda. Foi ali que nasceram técnicas de alegorias que se mexem, dando vida às estruturas de ferro e criando bonecos e animais que movem braços, piscam, rastejam ou batem as asas. O que os artistas plásticos parintinenses foram capazes de fazer impressionou tanto os carnavalescos cariocas que, no final da década de 90, foram chamados para transformar os carros cenográficos das escolas de samba. No fim, uma revolução foi feita no Carnaval do Rio por obra da “Ilha da Magia”.

Divulgação/Secom Parintins

O Festival de Parintins virou referência na construção de alegorias

Agora, todo ano, Parintins exporta seus talentos para os festejos carnavalescos. Assim que o festival acaba, uma horda de artistas locais desce para o Sudeste para trabalhar na parte estética e robótica dos carros. Kennedy Prata, por exemplo, com duas décadas de trabalho no Caprichoso, se consolidou na Sapucaí: o escultor passou por Salgueiro e Imperatriz, até ser campeão pela Beija-Flor no ano passado. O artista cenográfico Nildo Costta Paris atua na Viradouro, Unidos de Padre Miguel e Tuiuti, junto com uma equipe de 18 amazonenses.

A economia criativa gira não só para quem está envolvido diretamente nas apresentações, mas artesãos que criam roupas e acessórios para as personalidades que frequentam o festival e turistas interessados em levar um pedaço de Parintins e da cultura amazônica para casa. É o caso do designer Helerson Da Maia, que chega a assinar 300 peças e cocares por temporada.

A celebração é motivo de orgulho para quem mora na região, vive e respira a cultura do boi-bumbá. Aline Duarte, criada em Manaus e que há três anos dança pelo Garantido, é uma delas: “[O festival] Tomou outra proporção hoje. Sabemos que agora ele está no hype e tentamos usar isso de uma forma que vá beneficiar um conjunto: os moradores daqui, nossa cultura e o Norte em geral”.

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