Luedji Luna Conta Como Deixou Plano da Família para Seguir Sonho na Música

Publicado em 25/06/2025 · Categoria: Negócios

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Luedji Luna foi a primeira da família a transformar a música em carreira. Filha de funcionários públicos, deixou para trás um caminho traçado no direito para, aos 27 anos, seguir o sonho de viver da arte e de suas canções. “Foi realmente um chamado do meu espírito e do meu coração, que só tive coragem de atender já adulta”, conta.

Desde o lançamento de seu primeiro álbum, “Um Corpo no Mundo”, em 2017, a cantora e compositora soteropolitana se firmou como um dos principais nomes da música brasileira contemporânea. “Lá atrás, eu não imaginava que iria conquistar tudo o que conquistei. Mas hoje, sinto que mereço isso.”

“Não previa, mas também não me surpreendo”, diz ela sobre o sucesso dos últimos anos. Foi indicada ao Grammy Latino de “Melhor Álbum de MPB” em 2021, apresentou-se na premiação, fez turnês dentro e fora do país e dividiu palcos com artistas como Alcione, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Anitta. “Estar entre essas personalidades e ser considerada parte desse panteão da música brasileira representa um momento de consolidação da minha trajetória.”

Hoje, aos 38 anos, Luedji vive uma das fases mais intensas da carreira. Em maio, lançou seu quarto álbum de estúdio, “Um Mar Pra Cada Um”. Neste mês, estreou o quinto, “Antes Que a Terra Acabe”. Paralelamente, lidera a festa de música negra Manto da Noite — da qual é idealizadora, CEO e curadora —, que teve sua primeira edição em 2024. “A maturidade me trouxe essa sabedoria: saber o que eu quero e, principalmente, o que não quero mais.”

A seguir, Luedji Luna compartilha os bastidores da carreira, reflete sobre os limites do sucesso e revela como concilia criação artística, ambição e saúde mental.

Forbes: Como surgiu sua paixão pela música?

Luedji Luna: Desde a infância, sempre tive uma natureza muito criativa — é algo que está no meu DNA. Mas só tive coragem de encarar isso profissionalmente aos 25 anos. Antes, eu não planejava viver de música.

Não venho de uma família tradicionalmente ligada a essa indústria. Minha família é formada, em sua maioria, por funcionários públicos. Meu pai toca, eu tinha um tio e um primo que também tocavam, mas, profissionalmente, fui a única que decidiu seguir esse caminho.

Havia um planejamento familiar para que eu também fosse funcionária pública. Cheguei a estudar direito e até pensei em prestar concurso. Mas aos 27, me mudei para São Paulo para viver da música e me realizar como cantora.

Por isso, acredito que foi realmente um chamado do meu espírito e do meu coração. E só tive coragem de atender já adulta.

Você comentou que, dentro de casa, não teve inspirações profissionais na música. Mas fora dela, quem te guiou nesse caminho?

É curioso, porque meus pais não são músicos, mas minha primeira escola de música foi justamente a minha casa. Era um ambiente muito musical.

A minha cidade também é bastante musical, mas, ao mesmo tempo, pouco convidativa para mulheres negras, especialmente cantoras negras. As grandes referências da música na época eram poucas, e quase nenhuma mulher negra estava nesse lugar de destaque. Uma das poucas era Margareth Menezes.

Tinha poucas referências, mas me lembro do impacto que foi ver Ellen Oléria vencer a primeira temporada do The Voice Brasil e se consagrar nacionalmente, com a voz e também como compositora.

Foi a partir dali que comecei a ter mais coragem de me jogar na música. Tenho muitas referências, dentro e fora do Brasil, mas o que foi determinante mesmo foi ver uma mulher negra, gorda, sapatão, vitoriosa na televisão. Isso foi muito impactante para mim.

Quando você entendeu que podia viver da música?

Acho que fui entendendo no processo. Quando me mudei para São Paulo, coloquei todas as minhas metas no papel — os lugares onde queria cantar, os meios de comunicação com os quais queria me vincular. Fui construindo um projeto, a partir de muita pesquisa, observando outras carreiras e entendendo como tudo funcionava.

Fui anotando tudo: algumas coisas consegui, outras não. Algumas conquistas chegaram com o tempo. E, então, fui contemplada com um edital — o Prêmio Afro, patrocinado pela Petrobras. Também fiz uma campanha em um crowdfunding para conseguir o valor necessário para fazer o disco.

Quando percebi, já estava com tudo nas mãos. Passei em primeiro lugar nesse edital, e foi assim que consegui gravar meu primeiro álbum.

A minha carreira profissional se confunde com a trajetória desse primeiro disco. Foi a partir dele que tudo começou de fato: consegui pagar minhas contas, viver de música e me colocar no mundo como cantora.

Hoje, sua carreira é o que você imaginava?

No primeiro disco, eu não esperava chegar onde estou. Estava feliz só por ser cantora — isso já era o suficiente para mim. Só o fato de ter conseguido gravar um disco já era uma realização enorme. Mas, com o tempo, o reconhecimento e a fama, naturalmente fui criando ambições e desejando mais.

Lá em 2017, eu não imaginava que iria conquistar tudo que conquistei. Mas hoje, sinto que mereço tudo. Não previa, mas também não me surpreendo. Porque sei que é fruto do meu trabalho, do meu esforço, do reconhecimento por algo que faço com muita dedicação. Então, eu abraço, acolho, aceito e agradeço tudo que vem.

Olhando para a sua trajetória, quais você diria que foram seus momentos de virada?

Acho que a primeira virada foi já no lançamento do primeiro disco. “Um Corpo no Mundo” foi um verdadeiro portal, foi o que me tornou cantora. Outro ponto muito importante foi a indicação ao Grammy e a oportunidade de cantar na premiação.

Também considero como momentos muito significativos as vezes em que cantei com grandes nomes da música brasileira. Já dividi o palco com Alcione, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Ivete Sangalo, Anitta e Leci Brandão.

Como foi esse momento da indicação ao Grammy Latino e do convite para cantar na premiação?

A indicação em si foi até tranquila, porque eu realmente não estava esperando. No meu primeiro disco, inclusive, eu nem me inscrevi para o Grammy Latino. Era tão amadora na época, tão distante desse universo, que nem sabia dessas coisas.

No segundo álbum, eu já estava com uma distribuidora melhor, que entendia o mercado e fez a inscrição. Aí veio a indicação — e, junto com ela, o convite para cantar na premiação. Foi aí que bateu o nervosismo. Porque toda aquela organização gringa, uma superprodução, era tudo novo.

Fechei os olhos e fui. Mas foi uma das experiências mais desafiadoras da minha carreira. Cantar fora do país, se comunicar em outra língua, cativar o público de outro lugar. E tudo isso lidando com uma equipe que não era a minha, com profissionais desconhecidos, me acelerando o tempo inteiro. Foi tenso, mas também muito gratificante. No fim das contas, ficou tudo muito bonito.

Toda carreira artística tem seus altos e baixos. Quais foram os maiores desafios ao longo da sua trajetória?

Neste momento, o maior desafio tem sido lidar com o crescimento da minha carreira sem sucumbir a ele. É um esforço diário de fazer uma boa gestão de pessoal, do meu tempo e da minha energia. Estou em uma fase em que preciso avaliar constantemente se as pessoas ao meu redor, as que trabalham comigo, estão acompanhando esse crescimento e dando conta dessa demanda.

Estou feliz com os resultados. Mas, ao mesmo tempo, me questiono: como continuar sem me sobrecarregar, sem adoecer, sem morrer? Quero viver bem. Amo o que faço como meu trabalho, mas também não sou só cantora. Tenho minhas pernas, meu intelecto, posso fazer outra coisa da vida, se for preciso. Se as coisas não estiverem respeitosas comigo e se não fizerem mais sentido, eu não estou apegada.

Você sempre teve essa visão? Ou o significado de sucesso mudou ao longo dos anos?

Esse pensamento tem vindo agora. Acho que é porque hoje estou em um lugar mais estável. Quando a gente está lá no começo, querendo conquistar espaço, é normal se sobrecarregar e acumular funções.

Agora, com 38 anos, parece pouco, mas é outro momento da minha vida. A maturidade me trouxe essa sabedoria: saber o que eu quero e, principalmente, o que eu não quero mais.

Uma das coisas que eu não quero é ver minha saúde e meu bem-estar à mercê da minha carreira. Amo o que faço, quero continuar, mas de um jeito mais saudável. Se for para adoecer ou não conseguir ver meu filho crescer, se não for respeitoso comigo, prefiro não fazer.

A gente precisa se priorizar. No fim, a música vai continuar tocando as pessoas e seguir o seu caminho. Todo mundo vai ficar feliz e emocionado. E a cantora? Vai morrer, adoecer e desaparecer. Eu não quero isso para mim. Também quero viver e gozar da minha própria música.

Desde o lançamento do seu último álbum, como tem sido sua rotina?

Não estou tendo muito tempo para mim. Está tudo muito caótico e corrido por conta dos lançamentos. São mil coisas para resolver e nada pode ser decidido sem a minha aprovação. Tenho que me desdobrar em dez para dar conta de tudo.

Espero que isso passe logo. Estou esperando muito para conseguir tirar um momento para mim e poder respirar.

Como é o seu processo criativo?

Escrevo muito em trânsito. Boa parte das minhas canções nascem assim — escrevo no avião, na van. Quando consigo uma brecha na agenda, estou no celular escrevendo.

Viajo muito, então esses momentos de deslocamento acabam sendo os únicos em que consigo criar. Algumas poucas músicas nasceram em casa, mas isso é raro.

Como artista, como você enxerga o cenário atual da música no Brasil?

Percebo que atualmente o Brasil está muito pop, com várias vertentes do gênero, mas mais forte ainda para aqueles que trazem sonoridades mais eletrônicas, como víamos as divas do pop americano dos anos 2000. Mas também em um lugar menos mainstream, temos diversos nomes que estão se aventurando naquilo que hoje é chamado de urban music, como hip hop, R&B e neo jazz. Estamos em um momento interessante de explorar diversos gêneros e transformá-los dentro da identidade brasileira, que é muito diversa.

Mas acredito que tem sido cada vez mais difícil para novos músicos e até para quem não atingiu os milhões de seguidores e não viralizou com milhões de views ou plays. Os festivais seguem muito homogêneos. Apesar de eu estar em muitos deles, não posso fechar os olhos e dizer que não percebo as repetições de line-ups.

Quais os seus próximos sonhos e projetos?

Tenho vários sonhos. Boa parte deles envolve minha relação com a música. Pelas minhas pesquisas e buscas de sonoridades, ainda tenho muita história para contar. Também sonho em seguir com a Manto da Noite e que esse projeto tão especial para mim cresça e se torne um festival reconhecido no país por sua originalidade — e a meta é realizá-lo na Bahia.

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